E a lua quase cheia.. que rebenta
pelas costuras gastas de um casaco negro de malha já rasgado, roto pelo uso e
pelo cansaço.
Esta lua que fora união hoje
demonstra o podre que sobeja dentro daquele poço onde reside algo, algo sem
fim, que de negro se veste e de luz se transveste apenas para me enganar uma
vez mais, e eu deixo, deixo com a alegria de quem é enganado por gosto, de quem
vive alegre com a cruz e de que mais não quer saber. Que tem que vir de dentro
para fora já o sei, desde sempre minha mãe o disse, que seja um terror viver
com ela já eu sabia desde o dia em que conheci o alvor de uma madrugada de
beijos e abraços embriagados mas não me importa, houve tempos idos em que me
disseram: “Por vezes parece que nunca me sinto bem se não estiver a ajudar
alguém, tenho um desejo por isso, por ser útil, por ajudar, senão.. senão não
faz sentido”. E acredito pois eu tenho sempre o desejo de me importar com
alguém, de andar com ela sempre no peito, num sofrimento atroz que fere e
alimenta, que querem que faça?! Nasci assim, num sufoco de um amor estragado,
num berço em que transborda a tristeza e a desilusão, cresci à força de braço e
em guerra com um estar e um sentir, e agora mantenho-me assim, vivo num
permanente estado de preocupação por ela, por ti, por alguém. Agarro-me a uma
centelha do amor como se fosse ar pois nasci, cresci e vivo sem ele, é mais
simples a explicação do que parece, sobrevivo da tristeza que o amor trás e
isso faz de mim um ser atroz, indesejável, sufocante e acima de tudo, sempre em
pânico.
Tento agora que a luz me ilumine
e rasgue o corpo, faço luto por um grande amor que já partiu e não volta, tento
não me preocupar nem deixar que isso afecte os meus actos, caminho de cabeça
erguida por entre as gentes desconhecidas e anseio o retorno. Mas não me digam
como me devo sentir, se se ama forte e se tem dificuldade em deixar partir é
porque foi um grande amor, provavelmente aquele, tal como os outros que deixei
partir por causa desta minha nuvém que apenas trás negro a quem me acompanha, desiste,
desiste de mim mas não digas que desista de ti, se lês estas palavras é porque
queres saber, já não sou o mesmo, a poesia agora é outra embora me entristeça a
alma de nunca ter conseguido fazer com que esse tal negrume alheio desapareça,
pois sempre foi essa a minha grande preocupação e aquilo que mais me intriga,
porque nunca fui capaz de fazer florescer o amor e sempre destruí tudo à minha
volta quando o que mais quero é o bem, esse tão mal amado bem, fazendo as
palavras do meu tão querido bardo bastardo minhas:
“Chegámos ao fim da canção e paro
um pouco para dormir.”