sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Encontrei-te nas ruas enroladas, da subida ao ponto mais alto que víamos quando te encontrei sozinha no telhado, sempre fui cego e fiz dessa minha cegueira mote, sempre foi bom ser mal amado e ser desprezível, é uma condição de ser humano, o Homem é mau, velhaco e traiçoeiro tal como eu, tal como ele, tal como ela, todos, a ver bem até tu.
Encontrei-te junto a uma praça de morte enquanto passava de olhar rente à vergonha, - o táxi parou junto ao cruzamento - que atravessávamos quando íamos a caminho de Londres, passando por Paris numa louca correria, - numa procura, - que não éramos nós, era um encanto por um novo estar que nunca chegou a ser ser, foi só vento que o atravessou, frio ar forte que abalou minha alma e embalou teu corpo ao meu - ou esqueces que foste tu que me procuraste e ofereceste tua mão, que me prometeste ajuda, cantigas, livros e poemas mesmo antes de tentar por eu a mão no teu bolso, nas abas largas do casaco negro que te cai sobre as costas. Prenuncio queirozíano.
Encontrei-te na estação onde te ia esperar, quando lá passo fecho os olhos para não te recordar, sentada no banco de madeira enquanto escorria água para velhos baldes num sítio onde as cores e as formas de estranhos animais nos baralham o pensamento, um encontro quase perfeito na escadaria que une o cais. - E lá estás tu. - Com o olhar vazio num pensar constante e numa beleza só tua, plural e em cada oração única.
Encontrei-te em convulsão - passeios longos pelas ruas desta cidade maldita, pelos velhos quarteirões e novos bairros inteiros, cheios de gente sem interesse para descobrir. Já nem a procura nas ruas faz sentido, pois nelas estão cravadas palavras que levam a ti, ao saudosismo inútil e a este encontro inevitável.
Encontrei-te no fundo do copo, na ultima garrafa de aguardente, encontrei-te no saco vazio e mastigado, lado negro, saboroso, que alivia este pesar sentido que habita em mim, - o que te levou a desistir, - como bem te compreendo o cansaço, se de mim próprio já desisti à muito. És em mim o que resta do carinho e a mágoa que fica por partir assim.
Encontrei-te e escondi-me na luz alva da claridade para que teus olhos claros ficassem ofuscados por algo que não a minha presença. Essa presença demasiado constante, castradora, desesperada, já passou. O tempo ensinou que não pode ser assim, escolho a solidão, porque tudo é uma escolha, o dar a mão e o abandono, o eterno e o passageiro, a bondade e a vilania, a nada se pode retirar valor.
Enquanto a vida acontece e o tempo passa encontro-te noutros corpos e noutras camas que não aquela - daquele quarto baixo, - a meio andar de altura, numa casa onde entrou o sol que és pela vidraça do sótão, no pequeno quintal com vista para o vizinho, com jarros de álcool fresco e onde todas as manhãs eram de anseio a voltar a ter-te junto a mim, pela noite, num abraço, até ao raiar da madrugada.
Encontro-te.
Encontro-te em sonhos, em ruas, casas e leitos alheios, vivo numa eterna lembrança e encontro-te quando lês as palavras que escrevo. Encontro-te quando choras por não saber sentir, por quereres sempre a fuga e o  teu olhar perdido no horizonte. Encontro-te na música, nas notas suaves que entram e saem de mim, sempre com o teu fogo no pensamento. Encontro-te quando me perco nos acordes que invento na lembrança do teu rosto. Encontro-te entre as folhas do chá que bebo, num copo azul turquesa pela manhã e num roxo gasto pela noite, encontro-te aí, escrita no fundo, marcada pelas folhas de chá ressequidas pela madrugada. Encontro-te quando já nada parece focado, quando tudo é uma triste vontade-fé, ser poeta e pouco mais, recolhe-te ao vento pois as velas cessaram num recolher do dia. O maior erro será ser quem sou, em teimar o encontro na paisagem, no espaço perdido entre estar aqui e encontrar-te no tempo, ignóbil ideia de musa, argumento de argila - tal ente verme que percorre os canais secos que são minhas veias, tal como no encontro do ventre num corpo semi-vivo de uma deusa, morena de lábia astuta e firme. Mesmo aí, não tenho fuga.
Sempre te encontro.

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